Desafios ainda impedem voos sem turbulências no Brasil

Desafios ainda impedem voos sem turbulências no Brasil

Ações solidárias de transporte de insumos e profissionais de saúde, adequação de ambientes para os novos cenários, iniciativas para mitigação do vírus em todas as etapas da jornada, movimentos para superação da crise, negociações em diversas esferas para beneficiar consumidores e profissionais, comunicação transparente para estimular a demanda. A aviação civil, um dos setores-chave dentro da imensa engrenagem do Turismo, vem realizando esforços hercúleos para se manter no ar durante os últimos 14 meses.

Não à toa, esse foi o tema escolhido pelo Conselho de Turismo da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP) para o debate que marcou a retomada dos webinários voltados à atualização dos empresários do setor. O convidado para a edição de estreia da série de debates, intitulada “Fora do Roteiro”, foi Eduardo Sanovicz. O assunto central, entretanto, não foi o único debatido entre o presidente da Associação Brasileira de Empresas Aéreas (Abear) e Mariana Aldrigui, presidente do Conselho.

Além dos reflexos da pandemia do novo coronavírus, Sanovicz também detalhou os desafios que atravancam o desenvolvimento desse modal desde muito antes de o vírus desembarcar no planeta e projetou o futuro da aviação, tanto no curto prazo quanto em um horizonte de tempo mais alongado. O conteúdo na íntegra pode ser visto no canal Youtube do Brasilturis Jornal, parceiro da FecomercioSP na transmissão do episódio de estreia.

Campeão mundial em desvalorização cambial

Foi a notícia da chegada do vírus à Europa que acendeu o sinal de alerta no mercado brasileiro. Segundo Sanoviz, cerca de três a quatro semanas antes de a pandemia se instalar no País, um voo com 91% de assentos reservados, entre Guarulhos (SP) e Milão (Itália), decolou com apenas 41% de ocupação. “As pessoas receberam a notícia e resolveram não viajar naquele momento”, explica. Do lado da indústria, começou uma movimentação intensa no sentido de construir uma agenda de enfrentamento – dividida em três eixos que se ramificam em 41 temas.

“O mais importante foi o acordo que fizemos com todos os 22 sindicatos para revisão de jornada e salários em troca de manutenção do emprego, o que permitiu que não demitíssemos quase ninguém”, afirma Sanovicz. Em paralelo, lideranças e gestores públicos de diferentes órgãos ligados à aviação iniciaram a logística para a repatriação de brasileiros pelo mundo, definiram questões relacionadas ao parqueamento das aeronaves e pressionaram a liberação de crédito para o setor. Auxílio que não veio até hoje, diferentemente do que ocorreu em outras partes do mundo. Segundo o presidente da Abear, 17 dos 20 maiores grupos de aviação do mundo receberam algum tipo de aporte financeiro de seus governos.

Além do prejuízo acumulado em um ano “duríssimo, de muito trabalho e aprendizado”, a conta ainda não fecha, já que a malha atual corresponde a 34% do mesmo mês, em 2019, e muitas despesas do setor estão atrelados ao dólar. “A entrada de receita despencou 77% e o câmbio subiu 35%, fazendo do Brasil o campeão mundial de desvalorização de moeda”, crava Sanovicz, reforçando a importância do modal aéreo e da manutenção da chamada malha essencial em um país de dimensões continentais. “A única maneira objetiva de você chegar de Macapá a Florianópolis do mesmo dia é por via aérea”, lembra.

Respondendo ao questionamento de um dos empresários da audiência, Sanovicz enumerou os problemas que ainda impedem voos sem turbulência no Brasil. “A aviação brasileira tem capital aberto há quase três anos, o que permitiu a aproximação com modelos de negócios global. O que impediu as empresas internacionais de investir no País não foi a pandemia, mas o custo-Brasil”, diz, destacando a judicialização, o ambiente de negócios e o valor mais alto de combustível, pela incidência do ICMS, como principais vilões.

Outro ponto de preocupação apontado por Sanovicz são as medidas de proteção ao consumidor e à indústria. Isso porque a lei que permite flexibilização de regras para remarcações e reembolsos (1036), que atendeu a mais de 25 milhões de consumidores durante o último ano, vale somente até o final do mês de maio. “Está tramitando no Congresso uma proposta para renovar esse acordo até outubro, com emenda estendendo até dezembro deste ano”, disse. O movimento é essencial para garantir a segurança do consumidor e estimular a demanda de viagens para o fim do ano.

Solidariedade no ar

O transporte gratuito de profissionais e insumos foi destacado por Sanovicz. “Somamos mais de 6 mil profissionais transportados de graça desde o início da crise, mais de 100 toneladas de equipamentos, cilindro de oxigênio, remédios e 4 mil órgãos destinados a transplantes. Agora estamos transportando todas as vacinas pelo País gratuitamente”, enumerou. Ele soma esse episódio à conquista da liberdade tarifária, em 2002, como grandes legados da aviação ao desenvolvimento do País.

A saída de um modelo de tarifas tabeladas para um cenário regulado pela competitividade resultou em uma década de crescimento em emprego e renda, além do aumento de 30 milhões para 100 milhões de viajantes e queda da tarifa média de R$ 800 para R$ 400, movimento que Sanovicz considera “o espetáculo mais bonito da história da aviação brasileira”. Para ele, esse movimento do passado fortaleceu o modal e permitiu que a indústria conseguisse suportar o cenário atual.

Olhando para o futuro, o executivo condiciona a retomada da atividade à imunização em massa. “Mantendo o ritmo de vacinar ao redor de 1 milhão de brasileiros por dia a gente já consegue projetar melhora em três ou quatro meses para diversos setores da economia. Não será integralmente, mas conseguiremos viabilizar uma malha muito semelhante à que fechamos o ano passado”, defendeu. Mariana acrescentou o caso da cidade de Serrana, que investiu em vacinação massificada e já tem um movimento de comércio e de serviços muito superior ao mesmo período do mês passado. “Não faltam evidências que tudo está atrelado à vacinação”, completa a presidente do Conselho.

Sanovicz estima um ano para a recuperação do doméstico e algo entre três a quatro anos para o turismo internacional. “Primeiro porque o ritmo de retomada será diferente de país para país e de região para região e segundo porque, hoje, o Brasil hoje é o segundo país mais afetado por restrições nas fronteiras, atrás apenas da África do Sul. Não vai ser resolvido em um passe de mágica, mas em um processo de reinserção do Brasil no planeta que vai demandar muito esforço”, defende.

Ele reforça que as viagens corporativas não vão sumir, o que tende a desaparecer do mapa do Turismo são as viagens exclusivamente para reuniões. “Aquele passageiro que comprava um bilhete em São Paulo para ir para Belo Horizonte para um encontro de três horas deverão passar a usar sistemas de videoconferências”, pontua, seguindo a visão que é consenso no trade de Turismo.

“A gente ainda não sabe a dimensão dessas novidades tecnológicas”, lembrou, reforçando que ao mesmo tempo em que provoca um decréscimo das viagens corporativas, as facilidades ampliaram as possibilidades de viagens de outra parcela da população. “Elas permitiram que um conjunto de pessoas pudesse fazer o trabalho de forma remota, sem comprometer o resultado, e que as famílias se adaptassem ao redor disso”, lembrou.

Assim como aconteceu após a Guerra do Golfo (1991) e ao ataque às Torres Gêmeas (2001), a pandemia do novo coronavírus também consolidará mudanças definitivas na forma que viajamos.  A primeira delas, na opinião de Sanovicz, é o impacto das operações digitalizadas na jornada do viajante. Como o despacho automático de bagagens que já estava em desenvolvimento antes da pandemia e foi acelerada pelo fato de cumprir o atributo essencial de minimizar contato. “Daqui a pouco teremos reconhecimento facial em vários aeroportos, o que permitirá um trânsito muito mais tranquilo, além das várias facilidades que estão surgindo nesse sentido da inovação”, disse, sem estimar prazos devido ao reflexo da pandemia nas finanças das empresas.

O investimento em combustíveis alternativos e neutralização de carbono também foram abordados por Sanovicz, respondendo à pergunta de um espectador. Na opinião do executivo, aviões elétricos ainda devem levar de 15 a 20 anos para se tornarem viáveis nos grandes centros comerciais. “Nosso desafio está em encontrar uma opção que permita a substituição paulatina do combustível fóssil, com ganho de escala para cumprir a meta de emissões similares às de 2005 até 2050”, diz. “O Brasil tem a Embrapa, tem insumo e tecnologia. Somos capazes”, finaliza. (fonte: Brasilturis – Camila Lucchesi)

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